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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Lições de Economia- Da excelência do consumo público II

Prosseguindo com a nova teoria económica. Na lição nº 1, analisámos os efeitos da austeridade e a perversão da diminuição do consumo público e privado. Na lição nº 2, e ao contrário, versaremos o impacto virtuoso do consumo público na economia. Convém dizer que esta escola doutrinária está muito bem espalhada em Portugal, com predominância em Lisboa, no ISEG e no ISCTE, com um fundamentalista braço armado na Faculdade de Economia de Coimbra e com fortes ramificações noutros centros científicos de grande investigação do Minho, Évora e Algarve.
Esta nova escola portuguesa aprofundou e deu nova qualidade à teoria clássica de que o consumo público, autonomamente e através do seu multiplicador, é o mais perfeito dinamizador da actividade económica. E reformulou Keynes que sustentava que ( nas condições concretas da Inglaterra dos anos 20 e 30 do século passado), era benéfico para a economia gastar dinheiro público nem que fosse a fazer e a tapar buracos, ao ampliar o conceito do buraco, considerando-o válido em todos os tempos e em quaisquer circunstâncias. E como não seria economicamente estético andar a abrir e a tapar buracos, os investigadores acharam que a sua aplicação em aeroportos, por exemplo, traria os melhores multiplicadores para a economia. O exemplo perfeito é o do Aeroporto de Beja, propositadamente feito para nele não aterrar qualquer avião, nem um só, como está a acontecer neste ano quase findo de 2012. Pelo que assim se criou a nova oportunidade económica de manter o emprego na sua destruição.  Mas a teoria económica da virtuosidade do consumo público foi ainda mais longe, ao ponto de estabelecer o novo paradigma de que o consumo público não traria gastos para o utilizador. Daí a proliferação de autoestradas sem custos, mas também sem trânsito, a harmonia económica perfeita, que também irá dar no novo consumo público de acabar com elas.
Claro que o consumo público tem um racional incontestável: cria actividade económica, emprego, impostos e, consequentemente, mais consumo, que cria mais actividade, mais emprego, mais impostos e mais consumo, numa espiral virtuosa imparável. É por isso que os Estados modernos que enveredaram por esta via, como Portugal, têm vindo a experimentar o enorme e sustentado crescimento que todos conhecemos.  
Claro que há sempre alguém que contesta o incontestável. Em geral, os economistas da Nova e da Católica não preenchem os Manifestos da nova doutrina. Uns trogloditas da idade da pedra económica.  
 

9 comentários:

Tonibler disse...

E ele há tantos... Ui!...

Stoudemire disse...

Caro Pinho Cardão, cheguei ao «preversão» e parei.

Quem assim assassina a língua do poeta da desfragmentação do «eu» não deve ter superior competência nas demais áreas da nossa existência.

Já lá escrevia Heraclito...

Carlos Sério disse...

A situação era desesperada quando em 1932 Franklin Delano Roosevelt ganhou as eleições presidenciais. Despois duma grave doença que o manteve afastado da política, Roosevelt chegou ao poder com uma mensagem regeneradora que colocaram em marcha todas as potencialidades do país para aprofundar a democracia, limitar as desigualdades e dar trabalho ao maior número possível de pessoas:
“Se metade dos norte-americanos – disse - tenham que se dedicar a enterrar garrafas de coca-cola e a outra metade a desenterrá-las, o faremos…”.

Carlos Sério disse...

Silva Peneda pertence a uma espécie política em vias de extinção: um social-democrata no Partido Social Democrata. (João Rodrigues no “ladroesdebicicleta)

Diogo disse...

O problema é que são os privados a orientar o investimento público:

Paulo Morais, professor universitário - Correio da Manhã – 6/11/2012

Os aumentos de impostos que nos martirizam e destroem a economia têm como maiores beneficiários os agiotas que contrataram empréstimos com o estado português. Todos os anos, quase dez por cento do orçamento, mais de sete mil milhões de euros, destina-se a pagar juros de dívida pública.

Ainda no tempo de Sócrates, e para alimentar as suas megalomanias, o estado financiava-se a taxas usurárias de seis e sete por cento. A banca nacional e internacional beneficiava desse mecanismo perverso que consistia em os bancos se financiarem junto do Banco Central Europeu (BCE) a um ou dois por cento para depois emprestarem ao estado português a seis.

Foi este sistema que levou as finanças à bancarrota e obrigou à intervenção externa, com assinatura do acordo com a troika, composta pelo BCE, FMI e União Europeia. [...] Mas o que o estado então assinou foi um verdadeiro contrato de vassalagem que apenas garantia austeridade. Assim, assegurou-se a continuidade dos negócios agiotas com a dívida, à custa de cortes na saúde, na educação e nos apoios sociais.

[...] A chegada de Passos Coelho ao poder não rompeu com esse paradigma. Nem por sombras. O governo optou por nem sequer renegociar os empréstimos agiotas anteriormente contratados; e continua a negociar nova dívida a juros incomportáveis.

Os políticos fizeram juras de amor aos bancos, mas os juros pagámo-los nós bem caro, pela via dum orçamento de estado que está, primordialmente, ao serviço dos verdadeiros senhores feudais da actualidade, os banqueiros."


[...] "Estas situações de favorecimento ao sector financeiro só são possíveis porque os banqueiros dominam a vida política em Portugal. É da banca privada que saem muitos dos destacados políticos, ministros e deputados. E é também nos bancos que se asilam muitos ex-políticos." [...]

[...] "Com estas artimanhas, os banqueiros dominam a vida política, garantem cumplicidade de governos, neutralizam a regulação. Têm o caminho livre para sugar os parcos recursos que restam. Já não são banqueiros, parecem gangsters, ou seja, banksters."

Pinho Cardão disse...

Caros Leitores e Comentadores:

Peço desculpas pelo atropelo à língua portuguesa que hoje cometi, ao escrever "preversão" em vez de "perversão". Perverti a língua, o que é grave e tanto mais quanto sempre tive a preocupação de escrever, pelo menos, correctamente. Falta de atenção não justificável.
Aconteceu depois de 8 anos e seguramente depois de cerca de 2 mil "posts", não falando de centenas e centenas de comentários. Aconteceu uma outra vez, quando escrevi "nú" em vez de nu.
As minhas desculpas.

Caro Carlos Sério:

Em 1932. Keynes, uns tempos antes, na Inglaterra. Aludi a isso no post. E às condições vigentes da altura. Sei isso muito bem.
Quanto à raridade de Siva Peneda no PSD, olhe que não, olhe que não. O PSD é, felizmente, um partido plural e a social democracia a sua matriz originária. E muito bem. Tem alguma coisa contra?

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

Tenho eu, Pinho Cardão que não me reconheço neste partido social democrata. Aliás quero -lhe dizer que há muito social democrata a querer formar um novo partido verdadeiramente social democrata. A pluralidade não pode ser a dos interesses pessoais, das consultadorias, dos escritórios de advogados. Quanto aos atropelos de lapsus calami, não se preocupe que pior do que isso é o do acordo ortográfico feito nas costas das pessoas... para não variar!

Suzana Toscano disse...

Caro Pinho Cardão, com toda a reverência pelos economistas, não acredito que haja uns que tenham toda a razão e outros que não tenham nenhuma, sobretudo quando os argumentos são de efeitos contrários e radicais, num caso o endividamento galopante, no outro o desemprego galopante. Na altura, a América considerou que saía mais cara económica e socialmente uma horda de desempregados famintos e doentes do que subemprego ou emprego pouco reprodutivo.Na Europa a quest~~ao resolveu-se porque era preciso reconstruir tudo mas, até esse efeito dar frutos, desenhou-se o estado social que protegeria as pessoas dos efeitos negativos das carências e da desorganização. Concluiu-se também que a protecção social era virtuosa para a economia, porque as pessoas tinham mais confiança, a sua liquidez ia para a actividade ecnómica e a classe média cresceria em defesa, também de regimes políticos não totalitários. Enfim, os contextos históricos são essenciais para interpretar o passado mas, infelizmente, não nos ditam, com certeza absoluta, as receitas para o presente. Keynes foi muito criticado na altura e não saberemos o que teria acontecido se tivessem sido outras as correntes vencedoras. O Plano Marshal, considerado de uma ousadia impensável, só foi aprovado depois de uma visita in loco à Alemanha derrotada e devedora de indemnizações de guerra.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Pinho Cardão a Catedrático já!

Não só pela excelência científica na prosa como também pela excelente prova de humildade.

Sou de um tempo em que apontar erros de escrita era prova de falta de etiqueta na rede. Coisa de newbie troglodita. Mas devo estar a ficar velho por ter lido email no tempo dos VAXes. Com malta desta a dar aulas, não se preocupem com a juventude estar perdira.